17 março 2008

Deus existe? sim ou não? confira as respostas em todos os países

Pesquisa virtual sobre a existência de Deus. O comentário do Sopa de Cérebro se faz necessário:"Uma curiosidade (ou seria uma constatação?) é que nos países mais desenvolvidos, ricos e instruídos a maioria dos votantes não acredita em Deus. Acho que é interessante para refletir..."
As formas de domínio são disfarçadas e adaptadas constantemente. Quem tem mais acesso a informação está menos vulnerável.
Confira os resultados aqui ou na foto

Dica da página do Sopa de cérebro

Documentário: Kurt Cobain: About a Son


As mais de 25 horas de entrevista dadas por Kurt Cobain a Michael Azerrad que mais tarde se

tornariam o livro Come As You Are, transformadas em um documentário sobre a vida de KC.

97 minutos com a voz de Cobain, imagens relacionadas a entrevista e músicas que

influenciaram a vida de Kurt.


filme e legenda

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Ctrl c ctrl v, na cara dura, do Making Off

13 março 2008

Argentina planeja descriminar consumo de drogas


O governo da presidente Cristina Fernández de Kirchner quer a descriminação do consumo de drogas na Argentina, segundo o ministro do Interior, Aníbal Fernández.

Fernández defendeu a descriminação e a atenção médica aos usuários de substâncias químicas na segunda-feira, durante a sessão extraordinária sobre consumo de drogas e narcotráfico organizada pelas Nações Unidas (ONU) em Viena, na Áustria.

O ministro informou que o governo quer modificar a legislação atual contra entorpecentes. Nesta terça-feira, diante da polêmica gerada com suas afirmações, Fernández deu declarações a diferentes emissoras de rádio da capital argentina.

“Não haverá nunca droga livre em Buenos Aires”, disse à rádio Diez. “O que estamos dizendo é descriminar e erguer a mão (aos usuários), investir nisso (na atenção ao usuário).”

Combate

O ministro afirmou que a medida não reduzirá o combate do governo às drogas. Segundo ele, 60% dos casos que tramitam na Justiça Federal do país estão ligados ao narcotráfico e, desse total, apenas 4% terminam em condenação.

“Um caso por porte (de drogas) custa US$ 5 mil e manter um dependente preso custa 1,5 mil pesos por mês (cerca de US$ 500)”, disse Fernández.

“Esse dinheiro é desperdiçado e não ajuda o usuário (de droga)”, acrescentou. “Nós defendemos que esse dinheiro deve ser destinado ao sistema de saúde para poder tratar o usuário.”

Fernández, que foi ministro da mesma pasta no governo anterior, de Néstor Kirchner, acrescentou que o projeto foi estudado durante muito tempo pelos ministérios da Justiça, da Saúde e da Educação.

De acordo com o ministro, é hora de realizar uma “revisão profunda” da legislação em vigor para que se possa atuar de forma mais eficiente no combate ao narcotráfico.

A lei atual entrou em vigor em 1989 e incrementou o castigo aos usuários, que eram apontados como o primeiro degrau de uma corrente que acabaria no narcotráfico.

Para modificar a legislação atual, o projeto deverá ser discutido antes no Congresso Nacional, onde o governo tem maioria.

‘Notáveis’

Mas, antes de o texto seguir para o Parlamento, um grupo de especialistas – batizado de “grupo de notáveis” – analisa como deverá ser a nova lei.

O grupo foi criado pelo Ministério do Interior e, de acordo com sua coordenadora, a promotora de justiça Monica Cuñarro, o sistema atual prejudica os mais pobres.

“O dependente que tem dinheiro pode pagar um plano de saúde e advogado”, disse Cuñarro à rádio Continental. !Mas os mais carentes acabam fichados na Justiça e estigmatizados, o que marcará sua vida profissional para sempre.”

Uma pesquisa de opinião, realizada pelo governo no ano passado e publicada nesta terça-feira pelo jornal La Nación, indica que existem 440 mil consumidores habituais de cocaína e, na opinião da maioria dos entrevistados (45,2% dos 56 mil consultados), não é difícil conseguir a droga na Argentina

fonte: BBC

12 março 2008

Homenagem à Patrícia Troncoso e a Nação Mapuche

Enviado por Sabotagem em 12 Março, 2008 - 4:21pm.

Há séculos os Mapuche vêm lutando contra a brutalidade colonial, primeiro contra os servos encomienderos da coroa espanhola, atualmente contra o fascismo racista do estado chileno que desrespeita seus direitos básicos à terra e à vida, negando a existência destes em nome de seus próprios interesses capitais. Hoje há centenas de presos Mapuche nas cadeias chilenas, a despeito de toda essa dor, os Mapuche se erguem contra a tirania colonial e sua violência. Este é um pequeno vídeo que busca homenagear esta grande luta.






Via sabotagem

06 março 2008

Manifesto Zapatista

5 sonhos do zapatismo, 5 sonhos para a resistência



César Enrique Pineda Ramírez
18 de fevereiro de 2005.

Imaginem por um momento que o capitalismo é uma edificação. Uma voluptuosa e faraônica obra que a humanidade construiu nos séculos recentes. Um sólido muro, quase perfeito que não pode desintegrar-se, já
que os materiais com que é feito são a dominação, a exploração e a alienação. Se alguém olha o muro, parece que não há forma de derrubá-lo. Parece impenetrável, inexpugnável. Não há maneira de escapar do muro.

Aproximen-se agora um pouco do muro. Olhem detidamente. Seus olhos têm que fazer um grande esforço. O muro... tem uma fenda. É uma pequena rachadura, quase imperceptível. Por essa abertura, se uma pessoa
focaliza bem a vista, parece que se pode ver do outro lado. Mas a rachadura não deixa ver muito bem. É uma fissura, que parece, não faz nenhum dano à solidez do grande muro. Essa fissura, é o zapatismo.

O zapatismo nos ajuda a ver do outro lado. A sonhar com o outro lado, já que mal podemos ver uma pequeníssima parte. Alguns dizem, que esta idéia é uma ilusão, algo infantil, mal uma quimera juvenil, desorientada e
confusa. Nós cremos que é uma possibilidade, uma rota por explorar, um caminho que quiçá podemos caminhar.

O zapatismo nos ajuda a pensar ao inverso. De fato, em muitas formas, é uma revolução ao inverso. É um exército que não usa suas armas. São revolucionários que falam de amor. É uma forma de fazer política que não procura tomar o poder. São indígenas pobres, não uma vanguarda iluminada cujo programa, liderança e carisma se tenha que seguir cegamente.

O zapatismo tem muitas possibilidades de interpretação e de leituras. Façamos uma mais. Reorganizemos as contribuições do zapatismo às resistências do México, América e o mundo, para dizer que são cinco.Comecemos por uma delas.

1) Por um mundo onde caibam muitos mundos.

Diversidade e identidade

Durante muitos anos, de fato durante os últimos dois séculos, o pensamento humano e também dos movimentos de resistência foi construído sob algumas premissas básicas. O pensamento moderno, sob o influxo da
ilustração, do pensamento newtoniano e depois do positivismo gerou a visão de que poderiamos construir a verdade a partir da racionalidade. Construiu-se a idéia de que poderiamos encontrar através da ciência, a
verdade, e com ela, construir leis universais do funcionamento da história. Nossos movimentos, os movimentos de resistência históricos adotaram esta visão. Se encontrávamos e compreendíamos esse
funcionamento, só era questão de seguir as pautas dessa verdade científica para construir a revolução.

Esta idéia sobre a verdade, a racionalidade e a ciência, gerou um marco de pensamento patriarcal, linear, mecanicista, teleológico, que ajudou
muito na construção de uma modernidade desenvolvimentista e em constante expansão. A idéia de progresso, desenvolvimento e crescimento se adotou
pela humanidade, pela esquerda e por nossos movimentos como um fato sem questionamento da evolução humana.

Mas esse pensamento ajudou muito ao funcionamento de um sistema que precisamente precisa crescer sem obstáculos. É o funcionamento do capitalismo. O capitalismo cresce, ou perece.

Esse pensamento está em crise hoje. O zapatismo se inscreve na desestruturação desse pensamento. É por que as bases deste pensamento modernizador, desenvolvimentista, positivista causaram vários estragos.

Os zapatistas, o zapatismo, propõem um mundo onde caibam muitos mundos. O zapatismo propõe a idéia da verdade múltipla frente às leis universais
de verdades únicas. O EZLN disse que "as verdades nascem, crescem,desenvolvem-se, decaem e morrem". O pensamento dominante ou hegemônico ajudou a criar a idéia de que se tinha que homogeneizar,desenvolver, modernizar. Esta visão ajudou a arrasar a
diferença, as culturas, "os diferentes" em nome de uma modernidade racional que avançava inexoravelmente para um mundo melhor. Os povos índios, mas não só eles, sofreram as conseqüências desta visão. O zapatismo se inscreve numa onda de novas idéias que nos dizem que a
história não está escrita, que não necessariamente avançamos para um sistema melhor, e que o múltiplo e o diverso não são um obstáculo, senão que as diferenças são uma riqueza a proteger, a preservar. A
diversidade nos ajuda a avançar. Um mundo onde caibam muitos mundos é a proposta de um outro mundo onde convive, em unidade, a diversidade,
sem que uns se imponham a outros. Um mundo onde cabem todos, não é só uma idéia utópica do futuro, é uma forma de ver-nos, sonhar-nos, falar-nos entre nós. Hoje a política não se faz mais em nome de
verdades científicas. O zapatismo é parte desta nova forma de pensar, que dizemos, é pensar ao inverso.

2) Que o que mande, mande obedecendo.

Estado e poder

É suficiente tomar o poder político?, concebido este como o poder do estado, o poder que se considerava como o único e o mais importante. O zapatismo, e nós, cremos que não. Que poder do estado é um poder inevitável, sim, mas não é todo o poder, nem é todo o político. Mais importante que quem esteja no poder dizem os zapatistas é que quem está no poder, mande, mas mande obedecendo. Esta idéia com que o zapatismo contribui, é de novo uma idéia ao inverso. A esquerda construiu uma idéia providencial e heróica da tomada do poder. O caminho da transformação ou da queda do capitalismo é uma grande odisséia, quase sempre encabeçada por
um herói, enche de dor e sofrimento onde ao final do caminho, a vitória,isto é, a tomada do poder é a grande chegada, o grande dia, o momento em que se bifurca a história em duas grandes etapas. Num antes e num depois. A partir daí, e SÓ a partir daí, a história e o homem começavam a mudar. É o que Immanuel Wallerstein chama a estratégia de dois passos: tomar o
poder e depois, e só depois, mudar ao mundo. A estratégia dos movimentos de resistência girava ao redor desta rota. Era uma estratégia digamos,
estadocêntrica.

Mas esta idéia também se deteriorou, ainda que siga sendo muito importante. O zapatismo, ao propor que o que mande, mande obedecendo, reconhece a idéia da representatividade, mas com novos e coletivos
controles democráticos. Concebe às direções e as lideranças como resultado de um processo coletivo democrático, não como a vanguarda clarificante que
deve guiar-nos ao grande dia da transformação. A história do zapatismo também está cheia de exemplos de como o estado e sua força não são o único referencial e muitas vezes nem o mais importante em sua estratégia
política. Evidente que há conflito frente ao estado dominante e as elites mexicanas que governam. O levante armado deixa claro isto. Mas seu atuar parecesse uma lógica muito mais ampla, sua agenda não só define o conflito estatal. Há outras áreas, "outra coisa" dizem os colegas zapatistas, que é desenvolver suas próprias forças, dialogar com o resto, pensar nas alternativas, falar delas. Tudo isso não necessariamente está unido de forma direta com o poder estatal.

Mandar obedecendo significa repensar o poder. Não é só uma proposta ética, senão uma proposta que desarticula a lógica do poder tal e como a conhecemos. Desarticular as regras do poder implica evidentemente a luta
acima, contra os senhores do poder e a exploração mas também abaixo, entre nós, rompendo os esquemas de dominação em nossas famílias, trabalho e
escolas; entre homens e mulheres, entre adultos e jovens, entre raças, em nossas organizações e coletivos, em nossas relações cotidianas. É gerar
uma nova relação que permita a construção de um novo poder que decida de baixo para acima, que se autogoverne e determine assim mesmo. Implica
construir uma ordem social alternativa e global.

Esta proposta é crítica do sistema imperante em seu conjunto e não só do governo da vez. É uma revisão à lógica do sistema e não só uma crítica aos
dominadores. Mandar obedecendo significa também a subordinação do estado aos povos. Implica a democratização cada vez mais profunda do novo poder e
o correspondente processo de devolução progressiva das funções usurpadas pelo estado à sociedade mesma. Não há que tomar o poder, senão construí-lo. Não há que tomar o sistema por assalto, há que deconstruí-lo e nesse processo experimentar, desenhar, sonhar, um sistema alternativo.

3) Somar e não rachar. Construir e não destruir. Convencer e não vencer.
Representar e não suplantar.

Nova forma de fazer política.

Mas, como construir então um sistema alternativo global? O zapatismo com o mandar obedecendo, e o mundo onde caibam muitos mundos propõe algumas pistas para isso. Propõem um terceiro elemento. A construção de um novo mundo, de um mundo outro, precisamente de outra política. A história da esquerda de nossos movimentos está cheia de tristes exemplos onde os piores vícios do poder dominante foram reproduzidos em nossas organizações, em nossas decisões, em nossas estratégias. É uma história que separava os meios dos fins. Se procurávamos um mundo melhor para
todos, o socialismo, o comunismo ou a revolução a secas, isto justificava qualquer meio para se chegar a isso. Hoje, através da história, sabemos que
este pensamento pragmático deixou muito que desejar e que as cooptações, a corrupção, o sectarismo, o vanguardismo, o setorialismo, o autoritarismo
abalaram a credibilidade e a esperança dos povos que viram seus dirigentes revolucionários converter-se em ditadorezinhos em seus partidos, em suas
organizações. Que viram enriquecer-se às classes que falavam de um mundo igualitário. Que viram reproduzir o poder que tanto se criticava. Os que se diziam dominados, convertiam-se em novos dominadores. Uma nova ética, fundada em espaços coletivos é condição imprescindível para um novo mundo.
Por isso o zapatismo propõe aos movimentos somar e não rachar, acostumados estes à divisão, à discussão estéril. Propõe construir e não destruir,acostumada a esquerda a dilapidar todo o feito de mudança para controlar tudo o que quer. O zapatismo propõe convencer e não vencer, acostumada a esquerda aos piores vícios do acordo a escuras, da votação que achata, do
acordo imposto. Propõe representar e não suplantar; construídas as organizações e os partidos com as vozes de muitos que na prática costumam ser a voz de um só.

Sem novos movimentos, que se desenvolvam, experimentem e atuem dentro de um novo marco ético, o outro mundo se afasta, com o descrédito frente aos olhos dos povos.

4) Há que caminhar ao ritmo do mais lento.

Revolução e sujeito de mudança

Eliminando o velho vanguardismo, esse que dizia que se uma elite clarificada tinha o programa e a estratégia adequadas, as massas iriam correndo abraçar a revolução, o zapatismo entende mais a nossas
estratégias de resistência e construção de alternativas como um processo. A imagem "ultra" de empurrar metas que ainda não são realizáveis se derruba frente à idéia de que há que caminhar ao ritmo do mais lento.
Eliminando de novo a intenção de impor idéias e estratégias que por muito corretas, por muito avançadas que sejam não podem ser cristalizadas sem o
outro, sem os outros, que devem compartilhar, entender e enriquecer ditas propostas. Caminhar ao ritmo do mais lento é construir um processo coletivo para caminhar, e não correr deixando ao resto atrás.

Por outro lado, o mesmo levantamento rompia com o esquema do sujeito revolucionário. Enquanto uma parte da esquerda se nega a reconhecer que não só há um ator de transformação, o pensamento e a ação zapatista são um exemplo entre muitos outros de que nenhum setor tem um papel histórico predeterminado. E mais ainda, que a classe operária industrial, à que se atribuía um papel protagônico teve posições bem mais conservadoras frente à emergência de novos atores como os povos índios, os trabalhadores desempregados ou os movimentos de mulheres e pelo ambiente.

5) Há que caminhar perguntando.

Diálogo

Finalmente os zapatistas dizem que há que caminhar perguntando. Toda a concepção zapatista é uma forte crítica ao pensamento ortodoxo de esquerda, mas mais ainda, ao pensamento moderno ilustrado. Caminhar
perguntando implica o reconhecimento dos outros como atores para as alternativas e a construção, digamo-lo assim, revolucionária. Caminhar perguntando se inscreve numa visão profundamente democrática interna e
externa dos atores. Implica reconhecer que podem existir outras estratégias, implica reconhecer que devem mediar estratégias de consulta e consenso ao interior de nossos movimentos e que o diálogo como forma de articulação é um veículo poderoso entre os movimentos para desarticular muitas formas de dominação de maneira radical.

A ação do EZLN está cheia de exemplos de caminhar perguntando: Desde processo de consulta e construção interna do zapatismo, até os processos de encontro nacional e internacional que o EZLN convocou em inumeras ocasiões aos movimentos. Em todos os casos, das cinco contribuições que comentamos aqui, a praxe zapatista representa um experimentar constante.
Não desejamos mitificar aqui a ação zapatista. Sabemos e conhecemos suas próprias limitações, contradições e erros. Parece-nos, no entanto, que o movimento zapatista faz contribuições ao pensamento crítico que não podemos deixar de lado porque são assinalamentos profundos de uma reconstituição de nossas formas de pensar e construir nosso horizonte utópico. Estas cinco contribuições se entrelaçam cada uma, estes cinco
sonhos são como as cinco pontas de uma estrela, a zapatista que abre uma discussão universal sobre o poder, a diversidade, o estado, a revolução e
as formas de fazer política. A estrela vzapatista não é um novo dogma. É uma fissura no pensamento hegemônico para pensar ao inverso e para olhar do outro lado do muro.

Gretas e fissuras do gordo muro capitalista

Retomemos, finalmente nossa idéia inicial. Voltemos ao muro sistêmico do qual falávamos ao começo desta intervenção. Olhemos novamente no muro,afastemos a vista. Saiamos do zapatismo. Procuremos finamente por toda a parede do capitalismo. Veremos, se soubermos ver, que há mais fissuras e coarteaduras. O Exército Zapatista de Libertação Nacional é um sintoma,
um sinal, uma pista, um sinal entre muitas outras. Uma greta entre muitas outras.

Frente aos limites do sistema formal, frente à pobreza e a exclusão uma pequena parte dos povos resiste, mas também experimenta com novas formas de fazer relação humana. Os sem terra, os zapatistas, os piqueteros
territorializam suas resistências, criando pequenas zonas, pequenas ilhas de libertação. Fissuras do sistema. Erros da Matriz. Outros mundos,
"outras coisas" como dizem os zapatistas. Nesses espaços que não chegam a erosionar o funcionamento geral sistêmico, digamos a fortaleza do muro, no
entanto, opõe-se uma ação e um pensamento diferente ao hegemônico. São laboratórios de experimentação: juntas de bom governo, assembléias populares, terras tomadas que produzem; são sinais, pistas de como se olha
a vida, o mundo, do outro lado do muro. Frente à individualização e a concorrência se opõem o comunitarismo, a solidariedade e a cooperação. São
espaços onde se deconstrói o pensamento dominante. São espaços onde vemos alguns sinais de como seria uma nova educação, novas relações de intercâmbio e de comércio, formas experimentais de produzir cultura e
informação e o mais importante, formas novas de poder coletivo. Nessas experiências, mas também em muitas outras em todo o planeta, não há distinção entre lutas políticas e sociais, entre lutas materiais e
culturais. Igual se põe a mover a produção que questionar as relações hierárquicas e patriarcais. Igual há formas políticas de resistência
frente ao capital e o neoliberalismo que reivindicação da identidade cultural local. Igual se luta local e nacionalmente que globalmente. Nesses espaços se começou a derrotar o poder simbólico que mantinha atados aos grupos subalternos. A greta no muro começou a alargar-se.

Pensamos que essas fendas, essas fissuras, essas ilhas de libertação podem crescer, podem articular-se. Podemos, como diz o Subcomandante Marcos, fazer de nossas ilhas uma barca para ir encontrar-nos. Uma fissura que se reúne com outra pode provocar que se desmorone uma parte do muro. Centenas de pequenas gretas, enredadas entre si, de muitas formas, de muitos
tamanhos poderia quiçá, talvez, derrubar e fazer estourar ao muro por completo.

Não o sabemos com certeza. Quiçá valha a pena tentá-lo. Quiçá sim há algo melhor por trás do muro. Quiçá seja esse outro mundo, que dizemos, que é possível.

Enrique Pineda é integrante da agrupação mexicana Jovens em Resistência
Alternativa e recém egressado da carreira de sociologia na Universidade
Autônoma Metropolitana Xochimilco. Contato:
resistenciaglobaljra@yahoo.com.mx

Tradução: Norton

Via Sabotagem

05 março 2008

Revolution OS - O Linux nas telas!*


Revolution OS
Documentário
Direção: J. T. S. Moore;

EUA - 2001

Por Rafael Evangelista


Sentir-se motivado a abandonar tudo o que já se sabe sobre como usar um computador (onde estão seus arquivos, como executar um programa, que aplicativo faz o quê, quais as teclas de atalho) e começar a aprender quase tudo de novo é algo raro. Mas pode se tornar menos difícil após assistir ao documentário Revolution OS. Em formato jornalístico, ele conta a fascinante história da filosofia do software livre e a explosão do Linux, ainda durante a bolha de investimentos da internet da década de 1990. Com depoimentos das maiores figuras do software livre e do open source tais como Richard Stallman, Linus Torvalds, Eric Raymond, Bruce Perens e outros, o filme convence a qualquer um a aventurar-se pelos sistemas operacionais livres, cuja filosofia de compartilhamento, liberdade e comunidade remonta a ideais que pareciam esquecidos após duas décadas de yuppies e neoliberais individualistas.

Mas nem tudo é tão fraterno e comunal no mundo do software livre. Revolution OS tem méritos também por mostrar as contradições da própria comunidade. Um sistema de produção de software em que um dos itens motivadores é o reconhecimento dos pares, é claro que só poderia ser entremeado de vaidades. Criado originalmente por Richard Stallman, a cabeça por trás do conceito de copyleft (a antítese do copyright), o termo software livre (do inglês free software) é renegado por aqueles que querem torná-lo mais palatável a gostos empresariais. Estes querem então substituí-lo por open source (fonte aberta, em português), para que os investidores percebam que podem ganhar dinheiro com ele já que o free de free software quer dizer liberdade e não grátis.

Stallman, com seu visual hippie e seu bom humor, é um capítulo à parte. Incansável, ele luta para manter a integridade de sua filosofia de liberdade e para que o gigantesco trabalho dos desenvolvedores GNU seja reconhecido. Insiste que o Linux é uma pequena parte (essencial, mas uma parte) que se acoplou com perfeição ao sistema operacional GNU, desenvolvido de modo colaborativo desde a década de 1980. Quer, com justiça, que o sistema seja chamado de GNU/Linux, pois foi usando as ferramentas já prontas e a filosofia de trabalho colaborativo que o Linux pôde ser desenvolvido. Linus, o finlandês que gerenciou o trabalho colaborativo em torno do Linux, reconhece: "Ele é o grande filósofo, eu sou o engenheiro".

O conceito de software livre surge em 1984, quando Stallman funda a Free Software Foundation e postula as liberdades que são os pilares do movimento pelo conhecimento compartilhado: liberdade para qualquer uso, cópia, alteração e distribuição. Ele afirma que o software, desde os primeiros computadores, sempre foi livre. Os programadores na década de 1960 e 1970 desenvolviam tudo em um sistema colaborativo, trocando idéias e linhas de código assim como cozinheiros trocam suas melhores receitas. Foi na década de 1980 que se consolidou a opção de algumas empresas tornarem o conjunto de comandos padronizados enviados às máquinas, o software, também um produto, a ser vendido separado do hardware.

Mas a semente, a idéia da propriedade do software foi lançada por aquele que seria o homem que mais enriqueceu com a passagem dos códigos de computador de bem coletivo, compartilhado, a produto de direito de determinadas corporações: Bill Gates. O filme mostra uma carta dirigida há um clube de desenvolvedores, escrita por ele em 1976, logo após fundar a Microsoft, em que ele chama o compartilhamento de software de roubo e afirma que nenhum software de qualidade seria desenvolvido se os programadores não fossem bem pagos. Ao som de uma música que lembra os filmes de suspense a narradora lê o conteúdo da carta com uma agressividade crescente, dando um clima assustador a frases como: "Como a maioria de vocês já deve saber, grande parte de vocês rouba software. O hardware é algo a se comprar, mas o software é algo a se compartilhar. Quem se importa se aqueles que trabalharam nele são pagos? Isso é justo? O que vocês estão fazendo é impedir que bons softwares sejam escritos. Quem pode suportar um trabalho profissional que não é pago?"

Free Software Song
letra de Richard Stallman

Join us now and share the software;
You'll be free, hackers, you'll be free.
x2

Hoarders may get piles of money,
That is true, hackers, that is true.
But they cannot help their neighbors;
That's not good, hackers, that's not good.

When we have enough free software
At our call, hackers, at our call,
We'll throw out those dirty licenses
Ever more, hackers, ever more.

Join us now and share the software;
You'll be free, hackers, you'll be free.

Na ocasião, em tom acusador e agressivo, Gates reclamava que o trabalho dele e de seus outros dois sócios não estava sendo remunerado adequadamente devido às cópias não autorizadas. Menos de 10% dos usuários do Altair BASIC, que fora desenvolvido por eles, haviam comprado o software e, se calculado o tempo gasto na produção do produto, a remuneração seria de menos de US$ 2 a hora.

Quase trinta anos depois, o vitorioso modelo proprietário de Gates enfrenta novamente o modelo cooperativo, concretizado na filosofia do software livre. Se os dois modelos irão coexistir ou se algum deles prevalecerá é algo que o futuro irá dizer. Enquanto isso, é impossível não se encantar com a letra de autoria de Richard Stallman cantada pela banda GNU/Stallmans no final do filme: "Junte-se a nós e compartilhe o software; vocês serão livres, hackers, vocês serão livres. Acumuladores podem ganhar pilhas de dinheiro; isso é verdade, hackes, isso é verdade. Mas eles não podem ajudar seus vizinhos; isso não é bom, hackers, isso não é bom".

Baixe aqui a música cantada por Richard Stallman.

Baixe aqui o vídeo da banda GNU/Stallmans exibido em Revolution OS.

crtl c crtl v do comciencia

*título e links abaixo tirado do viva o linux

Link do filme:
http://www.brasilfilmes.org/forum/index.php?showtopic=18
Link alternativo:
ftp://ftp.slackware.no/pub/linux/misc/The_Code-Linux.avi (não necessita cadastro)
Legenda:
http://www.guiadohardware.info/news/2003/09/revolution os.srt

Mais legendas
os1
ou
os2
e
links

Rãs e Batuques: cineasta americano Jason Khon Manda Bala na alegorização da violência no Brasil

A primeira impressão que temos após assistir o filme Manda Bala (Send a Bullet) é de que foi realizado por um estrangeiro. No entanto, Jason Khon (foto ao lado), 28 anos, apesar de se considerar como um judeu Nova Iorquino, é filho de brasileira com argentino, este último morador de São Paulo há mais de sete anos. Falar português, ele não fala, prefere dar entrevistas em inglês, apesar de compreender um pouco a língua natal de sua mãe. Manda Bala é seu primeiro filme e levou cinco anos para ser concluído. Antes ele havia trabalhado com o famoso documentarista americano Errol Morris (The Thin Blue Line) conhecido por ter adotado certas técnicas da narrativa ficcional no documentário, tornando-o assim tão atraente e enigmático quanto um filme de entretenimento. Aliás, este um dos objetivos de Manda Bala, admitiu o diretor numa conversa com a platéia após a exibição de seu filme nos Estados Unidos.

Mas, o que incomoda em Manda Bala é o seu tom irônico e a sua abundância de clichês sobre a terra brasilis e suas contradições. Na visão de Khon, todos os males sociais brasileiros são facilmente explicados, e ele mostra o porquê de tanta violência urbana e segregação social: a corrupção política, que se tornou parte da cultura local. Um problema, segundo ele, negligenciado pelo povo e por uma sociedade injusta e mal discutido na mídia e no cinema nacional.

E, como a corrupção integra a cultura brasileira, a “culpa” é de toda a nação e não somente dos políticos e governantes. Nesta roleta russa ninguém escapa na visão do diretor e tudo pode se tornar alvo à ironia e ao sarcasmo. A alegoria no filme vem através da música, principalmente sambas-exaltação e batucadas à la Jorge Ben dos anos 60 e 70, que em descompasso com as imagens gera um segundo discurso. Este muitas vezes é ainda mais provocador e crítico sobre os fatos narrados.

Tudo é potencializado por um “tom” que o próprio diretor me definiu como “impressionista”. Para tal Khon utiliza uma imagem ímpar de um escândalo envolvendo o senador Jader Barbalho: um ranário. A criação de rãs se torna ponto de referência e análise da situação brasileira. Como um país miserável e atrasado como o Brasil, pode se tornar num dos maiores exportadores de rãs do mundo? Um animal sui generis, que se transforma prato exótico nos restaurantes do primeiro mundo e, que é capaz de comer a própria espécie na falta de alimentação. De um escândalo à outro, ou de uma contradição à outra, o diretor remete à exploração política à pobreza das periferias e à geração de uma das maiores indústrias de seqüestros do mundo. Que por sua vez, gera um dos mais renomados cirurgiões plásticos, especializado em reconstituição de orelhas. Um órgão comumente alvo da violência dos seqüestradores nos pedidos de resgate junto aos familiares das vítimas.

Assim, tudo se torna muito simples e compreensível nas argumentações do filme de Khon, como um efeito de causa e conseqüência. Não existe nenhum tipo de questionamento e reflexão sociológica, antropológica ou filosófica sobre a situação brasileira mas sim um raciocínio pragmático e cartesiano. Khon entrevistou uma série de personagens da sociedade brasileira: um executivo de São Paulo, usando pseudônimo e completamente disfarçado, que admite ter colocado dois chips rastreadores de duas companhias de seguro diferentes em seu corpo e ter gasto na blindagem de seu carro de esporte de alto luxo um terço do valor do mesmo; um seqüestrador da periferia paulistana que admite ter seqüestrado, mutilado e matado um sem número de pessoas e que se responsabiliza pela segurança e bem-estar dos moradores da favela; um cirurgião plástico ao lado de sua piscina; uma carioca que conta os horrores de seu seqüestro e a reconstrução de sua orelha; um criador de rãs; um policial da equipe anti-seqüestro; o advogado geral da República e ainda Jader Barbalho que fala de sua dedicação ao povo paraense.

Todas as entrevistas tem uma particularidade, a maioria dos entrevistados aparecem sempre ao lado de seus respectivos tradutores (veja foto ao lado), já que o diretor conduz as entrevistas atrás da câmera em inglês. Esta técnica, segundo o diretor, tem a principal função de evitar as legendas para o público americano, já que ao invés de ouvir apenas em português, eles podem facilmente entender as respostas diretamente traduzidas para o inglês. No entanto, ele substitui em muitos momentos a voz dos entrevistados pela voz dos tradutores o que aumenta ainda mais o distanciamento e desengajamento do filme com o assunto tratado.

No filme não faltam ainda imagens contundes e fortes de revirar o estômago de qualquer mortal, como uma orelha sendo decepada por um seqüestrador, vítimas sendo torturadas em cativeiros, rãs engolindo umas às outras, cirurgião reconstruindo uma orelha. E o que é mais impressionante são as crianças pobres nas ruas do bairro Jaderlândia da periferia de Belém, que se divertem imitando seqüestradores cortando as orelhas de seus seqüestrados. Ironia do destino ou pura coincidência “jornalística” do momento presente? Nada disso, Khon admite ter pedido às crianças para fazer a mímica da violência.

O filme ganhou dois prêmios num dos festivais mais conceituados do cinema independente, o Sundance, organizado pelo ator Robert Redford: grande prêmio do júri e melhor fotografia (cineasta paranaense Heloísa Passos). Atualmente está em cartaz em algumas salas americanas e participa de vários festivais de cinema como Roma e Vancouver.
No início do filme a primeira imagem é de uma cartela dizendo que o filme não pode ser visto no Brasil. O espectador se prepara para o pior e pode se perguntar: “Que país anti-democrático é este onde a censura ainda persiste?” Nas explicações do diretor, o filme recebeu ameaças de processo na justiça por parte de um dos entrevistados (que o diretor não quer revelar o nome) caso este seja apresentado em solo brasileiro e os produtores não tem dinheiro para arcar com os custos de uma possível defesa judicial. Alegação impressionante visto a qualidade técnica empregada na produção, onde inclusive cada entrevistado tem ao seu dispor um tradutor diferente.

Ao término da projeção do filme, o espectador pode se perguntar: “Afinal quem poderia censurar este filme e com que argumento, já que todas as entrevistas foram concedidas de comum acordo, mesmo a do senador Barbalho, que aliás este não revela absolutamente nada a não ser dos seus benfeitos políticos?” A maioria das imagens e informações sobre os escândalos envolvendo o senador apresentadas no filme de Khon foram extraídas de jornais e televisões brasileiras. Ou Manda Bala é oportunista ou falta com a “ética-social”, aquela do tato e do cuidado ao lidar com temas polêmicos e delicados de uma sociedade estrangeira. Aliás, um cuidado que todo documentarista deve ter quando mira sua câmera para uma realidade qualquer.

Hudson Moura

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